Hi there, tudo certinho por aí?
Há textos que a gente lê uma vez, acha interessantes e segue a vida. E há outros que ficam ecoando dentro da gente e, de tempos em tempos, pedem para ser relidos. É o que acontece comigo com um texto de Rubem Alves sobre algo que, curiosamente, todos nós fazemos bastante, mas nem sempre sabemos fazer bem: falar e ouvir.
A gente vive procurando cursos de oratória, técnicas para falar melhor, convencer, argumentar e se expressar. Mas quem nos ensina a escutar de verdade? Essa provocação de Rubem Alves continua extremamente atual e, para mim, é uma verdadeira joia.
Gosto tanto desse texto que resolvi prepará-lo em dois idiomas. Fiz uma tradução mais livre, buscando preservar não apenas as palavras, mas principalmente a beleza, o sentido e a sensibilidade do texto original. Afinal, uma boa tradução não precisa ser escrava da literalidade.
Logo abaixo, você pode acompanhar o texto em português e em inglês, com áudio em inglês, para aproveitar a oportunidade de refletir sobre a mensagem e, de quebra, praticar seu reading e seu listening.
Então, leia, escute, reflita… e talvez descubra que, às vezes, aprender a ouvir pode ser tão importante quanto aprender a falar.
Bons estudos e let’s do this!
QUEM FOI RUBEM ALVES
Rubem Alves (1933–2014) foi um escritor, poeta, filósofo, educador e teólogo brasileiro, nascido em Boa Esperança, Minas Gerais. Formado em Teologia e doutor em Filosofia pelo Princeton Theological Seminary, nos Estados Unidos, tornou-se uma das vozes mais originais do pensamento brasileiro.
Autor de uma vasta obra, escreveu sobre educação, religião, filosofia, infância, literatura e os mistérios da vida cotidiana, sempre com uma linguagem marcada pela sensibilidade, pela poesia e pela simplicidade. Entre seus livros mais conhecidos estão Ostra feliz não faz pérola, A menina e o pássaro encantado, A escola com que sempre sonhei sem imaginar que pudesse existir e O que é religião?
Rubem Alves defendia uma educação baseada na curiosidade, na imaginação e no prazer de aprender. Seus textos frequentemente convidam o leitor à reflexão sobre temas aparentemente simples, revelando neles profundas questões existenciais. Morreu em Campinas, São Paulo, em 2014, deixando uma obra que continua a inspirar leitores, educadores e pensadores.

ESCUTATÓRIA
Rubem Alves
Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória. Todo mundo quer aprender a falar. Ninguém quer aprender a ouvir. Pensei em oferecer um curso de escutatória. Mas acho que ninguém vai se matricular.
Escutar é complicado e sutil. Diz Alberto Caeiro que “não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. É preciso também não ter filosofia nenhuma”.
Filosofia é um monte de idéias, dentro da cabeça, sobre como são as coisas. Para se ver, é preciso que a cabeça esteja vazia.
Parafraseio o Alberto Caeiro: “Não é bastante ter ouvidos para ouvir o que é dito; é preciso também que haja silêncio dentro da alma”. Daí a dificuldade: a gente não agüenta ouvir o que o outro diz sem logo dar um palpite melhor, sem misturar o que ele diz com aquilo que a gente tem a dizer.
Como se aquilo que ele diz não fosse digno de descansada consideração e precisasse ser complementado por aquilo que a gente tem a dizer, que é muito melhor.
Nossa incapacidade de ouvir é a manifestação mais constante e sutil de nossa arrogância e vaidade: no fundo, somos os mais bonitos…
Tenho um velho amigo, Jovelino, que se mudou para os Estados Unidos estimulado pela revolução de 64. Contou-me de sua experiência com os índios.
Reunidos os participantes, ninguém fala. Há um longo, longo silêncio. (Os pianistas, antes de iniciar o concerto, diante do piano, ficam assentados em silêncio, abrindo vazios de silêncio, expulsando todas as idéias estranhas.). Todos em silêncio, à espera do pensamento essencial. Aí, de repente, alguém fala. Curto. Todos ouvem.
Terminada a fala, novo silêncio. Falar logo em seguida seria um grande desrespeito, pois o outro falou os seus pensamentos, pensamentos que ele julgava essenciais. São-me estranhos. É preciso tempo para entender o que o outro falou. Se eu falar logo a seguir, são duas as possibilidades.
Primeira: “Fiquei em silêncio só por delicadeza. Na verdade, não ouvi o que você falou. Enquanto você falava, eu pensava nas coisas que iria falar quando você terminasse sua (tola) fala. Falo como se você não tivesse falado”.
Segunda: “Ouvi o que você falou. Mas isso que você falou como novidade eu já pensei há muito tempo. É coisa velha para mim. Tanto que nem preciso pensar sobre o que você falou”.
Em ambos os casos, estou chamando o outro de tolo. O que é pior que uma bofetada. O longo silêncio quer dizer: “Estou ponderando cuidadosamente tudo aquilo que você falou”. E assim vai a reunião.
Não basta o silêncio de fora. É preciso silêncio dentro. Ausência de pensamentos. E aí, quando se faz o silêncio dentro, a gente começa a ouvir coisas que não ouvia.
Eu comecei a ouvir.
Fernando Pessoa conhecia a experiência, e se referia a algo que se ouve nos interstícios das palavras, no lugar onde não há palavras.
A música acontece no silêncio. A alma é uma catedral submersa.
No fundo do mar – quem faz mergulho sabe – a boca fica fechada. Somos todos olhos e ouvidos. Aí, livres dos ruídos do falatório e dos saberes da filosofia, ouvimos a melodia que não havia, que de tão linda nos faz chorar.
Para mim, Deus é isto: a beleza que se ouve no silêncio. Daí a importância de saber ouvir os outros: a beleza mora lá também.
Comunhão é quando a beleza do outro e a beleza da gente se juntam num contraponto.
THE ART OF LISTENING
Rubem Alves
I always see courses in public speaking being advertised. I have never seen a course in the art of listening advertised. Everyone wants to learn how to speak. Nobody wants to learn how to listen. I thought about offering a course in the art of listening. But I don’t think anyone would enroll.
Listening is complicated and subtle. Alberto Caeiro says that “it is not enough not to be blind in order to see the trees and flowers. One must also have no philosophy at all.”
Philosophy is a whole collection of ideas inside our heads about what things are like. In order to see, the mind needs to be empty.
I paraphrase Alberto Caeiro: “It is not enough to have ears to hear what is being said; there must also be silence within the soul.” And therein lies the difficulty: we cannot bear to listen to what another person says without immediately offering a better opinion, without mixing what they say with what we have to say.
As if what the other person says were not worthy of thoughtful consideration and needed to be supplemented by what we have to say, which, of course, is much better.
Our inability to listen is the most constant and subtle manifestation of our arrogance and vanity: deep down, we are the most beautiful ones…
I have an old friend, Jovelino, who moved to the United States, inspired by the 1964 revolution. He told me about his experiences with Native Americans.
Once everyone had gathered, nobody spoke. There was a long, long silence. (Before beginning a concert, pianists sit quietly at the piano, creating spaces of silence, driving away all extraneous thoughts.) Everyone remained silent, waiting for the essential thought. Then, suddenly, someone spoke. Briefly. Everyone listened.
When the person finished speaking, there was silence again. To speak immediately afterward would be a great sign of disrespect, because the other person had expressed their thoughts, thoughts they considered essential. They are unfamiliar to me. I need time to understand what the other person has said. If I speak immediately afterward, there are two possibilities.
First: “I remained silent merely out of politeness. In truth, I did not listen to what you said. While you were speaking, I was thinking about the things I would say when you finished your (silly) speech. I speak as if you had never spoken.”
Second: “I heard what you said. But what you presented as something new is something I thought about a long time ago. It is old news to me. So much so that I don’t even need to think about what you said.”
In both cases, I am calling the other person a fool. Which is worse than a slap in the face. The long silence means: “I am carefully considering everything you have said.” And so the meeting goes on.
Silence on the outside is not enough. There must be silence within. An absence of thoughts. And then, when we create silence within ourselves, we begin to hear things we could not hear before.
I began to listen.
Fernando Pessoa knew this experience and referred to something that can be heard in the interstices between words, in the place where there are no words.
Music happens in silence. The soul is a submerged cathedral.
Deep beneath the sea—those who dive know this—the mouth remains closed. We are all eyes and ears. Then, freed from the noise of chatter and the knowledge imposed by philosophy, we hear the melody that wasn’t there before, a melody so beautiful that it makes us cry.
For me, God is this: the beauty that can be heard in silence. That is why it is so important to know how to listen to others: beauty lives there, too.
Communion is when the beauty of the other person and our own beauty come together in counterpoint.
Veja também:
⇒ A LENDA DE SLEEPY HOLLOW: resumo completo do clássico do Cavaleiro Sem Cabeça [com áudio]
⇒ HAMLET – William Shakespeare | Resumo do Livro (Inglês + Português com Áudio)
⇒ 1984 – George Orwell | Resumo do Livro (Inglês + Português com Áudio)
⇒ FAHRENHEIT 451 | Resumo do Livro (Inglês + Português com Áudio)









